Aplicativos de smartphone são confiáveis para triar lesões cutâneas suspeitas de melanoma em adultos?
Resposta curta: A revisão Cochrane de 2018 concluiu que aplicativos baseados em inteligência artificial ainda não demonstraram acurácia suficiente e têm alta probabilidade de não detectar melanomas. Aplicativos com revisão de imagens por dermatologista (store-and-forward) mostraram sensibilidade alta, mas especificidade baixa e podem aumentar a carga de trabalho. A evidência é limitada e de baixa qualidade metodológica.
Resposta
A revisão sistemática Cochrane avaliou a acurácia diagnóstica de aplicativos de smartphone para excluir melanoma cutâneo invasivo e variantes melanocíticas intraepidérmicas atípicas em adultos com lesões suspeitas. Foram incluídos dois estudos com 332 lesões, das quais 86 eram melanomas, testando cinco aplicativos. A qualidade metodológica foi baixa, com alto risco de viés devido ao recrutamento seletivo de participantes e à alta taxa de imagens não avaliáveis.
Os quatro aplicativos baseados em inteligência artificial que classificavam imagens de lesões como melanoma ou como lesões de alto risco apresentaram sensibilidades variando de 7% a 73% e especificidades de 37% a 94%. O único aplicativo que utilizava revisão de imagens por dermatologista (store-and-forward) teve sensibilidade de 98% e especificidade de 30%. O número de falhas de teste (imagens classificadas como não avaliáveis) variou de 3 a 31, ou 2% a 18% das lesões analisadas.
Os autores concluíram que os aplicativos com análise por inteligência artificial ainda não demonstraram acurácia suficiente e estão associados a uma alta probabilidade de não detectar melanomas. Aplicativos baseados em store-and-forward poderiam ter um papel potencial na apresentação oportuna de pessoas com lesões potencialmente malignas, facilitando práticas ativas de autogestão em saúde e o engajamento precoce daqueles com lesões suspeitas; no entanto, podem acarretar aumento significativo de recursos e carga de trabalho.
Dada a escassez de evidências e a baixa qualidade metodológica dos estudos existentes, não é possível tirar implicações para a prática. Os autores ressaltam que este é um campo em rápida evolução e que novos e melhores aplicativos, com relatos robustos de estudos, poderiam mudar substancialmente essas conclusões.
Para o médico brasileiro, os achados reforçam a necessidade de cautela ao considerar o uso ou a recomendação de aplicativos de triagem de lesões cutâneas. A avaliação clínica presencial continua sendo o padrão para o diagnóstico de melanoma, e os aplicativos não devem substituir o julgamento clínico. Mais pesquisas são necessárias para estabelecer a real utilidade dessas ferramentas na prática clínica.
O que o estudo mostrou
Revisão sistemática Cochrane que incluiu dois estudos com 332 lesões suspeitas, das quais 86 eram melanomas, avaliando cinco aplicativos de smartphone. Quatro aplicativos baseados em inteligência artificial apresentaram sensibilidades de 7% a 73% e especificidades de 37% a 94%. O aplicativo com revisão por dermatologista (store-and-forward) teve sensibilidade de 98% e especificidade de 30%. Falhas de teste variaram de 2% a 18% das lesões analisadas. Os estudos tinham alto risco de viés e preocupações de aplicabilidade.
Limitações
O resumo informa que os dois estudos incluídos tinham alto risco de viés devido ao recrutamento seletivo de participantes e altas taxas de imagens não avaliáveis. Além disso, a aplicabilidade dos achados é limitada porque apenas lesões já selecionadas para excisão em ambiente de clínica dermatológica foram incluídas, e a aquisição de imagens foi feita por clínicos, não por usuários de aplicativos. Devido à escassez de dados e à baixa qualidade dos estudos, não foi realizada meta-análise. O resumo não informa o tamanho amostral total de participantes, apenas o número de lesões.
Aplicação no consultório
Os achados indicam que os aplicativos de triagem baseados em inteligência artificial não são confiáveis para excluir melanoma, pois podem deixar lesões malignas passarem despercebidas. Na prática clínica, o médico deve manter a avaliação presencial e a dermatoscopia como padrão, não recomendando esses aplicativos como ferramenta isolada de triagem. Para a gestão do consultório, a implementação de sistemas de teledermatologia com revisão por especialista (store-and-forward) pode ser considerada, mas exige planejamento de recursos e carga de trabalho adicionais. A educação continuada sobre limitações dessas tecnologias é importante.
Estudo citado
Smartphone applications for triaging adults with skin lesions that are suspicious for melanoma. The Cochrane database of systematic reviews, 2018.
Autores: Chuchu N, Takwoingi Y, Dinnes J, Matin RN, Bassett O, Moreau JF, Bayliss SE, Davenport C, Godfrey K, O'Connell S, Jain A, Walter FM, Deeks JJ, Williams HC, Cochrane Skin Cancer Diagnostic Test Accuracy Group.
DOI: 10.1002/14651858.CD013192 · PubMed: PMID 30521685
Perguntas para aprofundar
- Qual é a acurácia da dermatoscopia digital comparada à avaliação clínica para o diagnóstico precoce de melanoma?
- Aplicativos de smartphone com revisão por dermatologista podem reduzir o tempo até o diagnóstico de melanoma na atenção primária?
- Quais são os riscos de falsos negativos no uso de inteligência artificial para triagem de lesões cutâneas?
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