Quais são as percepções, barreiras e facilitadores para o uso de inteligência artificial na atenção primária, segundo médicos e pacientes?
Resposta curta: Revisão sistemática de estudos qualitativos identificou quatro temas: mudança na relação médico-paciente, IA como parceira na gestão de tempo e informação, dados como pedra angular e barreiras/facilitadores. Médicos e pacientes veem potencial para reduzir carga burocrática, mas preocupam-se com privacidade, viés e perda de empatia. Confiança alta nos achados, exceto no tema de barreiras e facilitadores.
Resposta
A revisão sistemática incluiu 13 estudos qualitativos com 316 participantes (médicos da atenção primária, pacientes e outros profissionais de saúde) de 6 países. A síntese temática revelou quatro temas principais: mudança na relação médico-paciente, IA como parceira para gestão eficiente de tempo e informação, dados como pedra angular do desenvolvimento de IA e barreiras e facilitadores para sua implementação.
No primeiro tema, os participantes expressaram preocupações sobre perda de empatia, conexão e confiança na relação médico-paciente. No segundo, a IA foi vista como potencial parceira para melhorar o fluxo de trabalho e a tomada de decisão, embora com ceticismo quanto ao aumento da carga de trabalho. O terceiro tema destacou preocupações com privacidade, qualidade e viés dos dados, além da responsabilidade corporativa.
O quarto tema enfatizou equidade, acessibilidade e co-design com as partes interessadas como barreiras e facilitadores. A avaliação GRADE-CERQual atribuiu alta confiança a todos os temas, exceto o quarto, com confiança moderada. Os autores concluem que a IA pode ajudar a lidar com carga de trabalho, tomada de decisão e gestão de dados, melhorando a eficiência do cuidado, desde que se assegure uma abordagem ética e centrada no paciente.
Para o médico brasileiro, esses achados reforçam a necessidade de considerar as percepções dos envolvidos antes de implementar ferramentas de IA na prática clínica. A revisão não fornece dados quantitativos sobre efetividade ou segurança, mas oferece um panorama qualitativo valioso para orientar discussões e decisões sobre adoção de IA na atenção primária.
O que o estudo mostrou
Revisão sistemática de estudos qualitativos que analisou 13 estudos com 316 participantes (médicos da atenção primária, pacientes e outros profissionais de saúde) de 6 países. Foram identificados quatro temas analíticos: mudança na relação médico-paciente (preocupações com perda de empatia, conexão e confiança); IA como parceira para gestão eficiente de tempo e informação (potencial para melhorar fluxo de trabalho e tomada de decisão, com ceticismo sobre aumento de carga); dados como pedra angular (preocupações com privacidade, qualidade, viés e responsabilidade corporativa); e barreiras e facilitadores (ênfase em equidade, acessibilidade e co-design). A confiança nos achados foi alta para todos os temas, exceto o quarto, moderada.
Limitações
O resumo informa que a meta-síntese incluiu perspectivas de médicos da atenção primária e pacientes, mas são necessárias mais pesquisas sobre as perspectivas de outros profissionais. Também houve heterogeneidade nos métodos e estratégias de amostragem. O resumo não fornece detalhes sobre a qualidade metodológica dos estudos incluídos nem sobre a magnitude dos achados.
Aplicação no consultório
Os achados podem orientar o médico na avaliação crítica de ferramentas de IA para o consultório, considerando preocupações dos pacientes com privacidade e viés, e a necessidade de preservar a relação médico-paciente. A gestão do consultório pode se beneficiar do potencial da IA para reduzir carga burocrática e melhorar fluxo de trabalho, mas deve-se atentar para a equidade e acessibilidade, além de envolver a equipe no co-design de soluções. A revisão não traz recomendações específicas, mas destaca a importância de uma implementação ética e centrada no paciente.
Estudo citado
Perceptions of, Barriers to, and Facilitators of the Use of AI in Primary Care: Systematic Review of Qualitative Studies. Journal of medical Internet research, 2025.
Autores: Martínez-Martínez H, Martínez-Alfonso J, Sánchez-Rojo-Huertas B, Reynolds-Cortez V, Turégano-Chumillas A, Meseguer-Ruiz VA, Cekrezi S, Martínez-Vizcaíno V.
DOI: 10.2196/71186 · PubMed: PMID 40560641
Perguntas para aprofundar
- Como a inteligência artificial pode impactar a relação médico-paciente na atenção primária?
- Quais são as principais preocupações de médicos e pacientes sobre privacidade e viés de dados em IA na saúde?
- De que forma o co-design pode facilitar a implementação de IA na atenção primária?
Mais sobre IA na atenção primária
- Quais são as perspectivas dos stakeholders sobre a adoção de inteligência artificial na atenção primária?
- Qual é o conhecimento, a atitude e a prática dos médicos da atenção primária em relação às tecnologias digitais de saúde assistidas por inteligência artificial?
- Modelos de predição diagnóstica baseados em IA e registros eletrônicos de saúde na atenção primária estão prontos para uso clínico?
- Qual é a qualidade do relato de intervenções de inteligência artificial em ensaios clínicos randomizados na atenção primária?
- Algoritmos e inteligência artificial podem melhorar o manejo de medicamentos na atenção primária?
Todas as perguntas sobre IA na atenção primária · Todos os temas · Versão em markdown