Em pacientes que aceitam reduzir mas não querem parar de fumar, a autoeficácia basal ajuda a prever quem se beneficia do tratamento motivacional?
Resposta curta: Em análise secundária de ensaio randomizado com 577 pacientes da atenção primária, a autoeficácia para parar previu tentativas de parar e entrada em tratamento de cessação. Com autoeficácia alta, não houve efeito significativo das intervenções; com autoeficácia baixa, aconselhamento para redução e mini-pastilha de nicotina reduziram as chances desses desfechos, sem efeito significativo sobre abstinência.
Resposta
O estudo parte de uma premissa clínica frequente: pacientes que não estão prontos para parar de fumar podem se beneficiar de abordagens na fase de motivação, ampliando o alcance do tratamento e a abstinência. Os autores, porém, lembram que esse tipo de tratamento tem efeito modesto e inconsistente, e buscam identificar fatores que modulem a efetividade dos dois componentes mais usados nessa fase: terapia de reposição de nicotina e aconselhamento para redução.
Trata-se de uma análise secundária exploratória de um ensaio randomizado fatorial com 577 pacientes da atenção primária dispostos a reduzir, mas não a parar, o tabagismo. Os participantes foram randomizados para aconselhamento de redução do tabagismo, mini-pastilha de nicotina, aconselhamento de ativação comportamental e aconselhamento motivacional 5Rs. Com abordagem de medicina de precisão, análises de aprendizado de máquina avaliaram se variáveis demográficas e de tabagismo identificavam pessoas mais propensas a se beneficiar das intervenções quanto a tentativas de parar em 24 horas, entrada em tratamento de cessação e abstinência autorreferida de 7 dias em 1 ano.
A autoeficácia para parar previu a probabilidade de fazer uma tentativa de parar e de entrar em tratamento de cessação. Em níveis altos de autoeficácia (acima de 3,5 de 5), não houve efeitos significativos das intervenções. Em níveis baixos (≤3,5 de 5), receber aconselhamento para redução reduziu as chances de fazer uma tentativa de parar (OR = 0,51, p = 0,002), e receber a mini-pastilha reduziu as chances de entrar em tratamento de cessação (OR = 0,55, p = 0,02). Não foram encontrados efeitos significativos sobre abstinência.
Os autores concluem que a autoeficácia basal para parar pode identificar pessoas que não serão ajudadas pelo tratamento motivacional padrão e que, portanto, precisam de outra abordagem terapêutica. O achado levanta questões sobre quem tratar e como tratar indivíduos que recusam tratamento de cessação, sugerindo que intervenções aplicadas de forma indiscriminada nessa população podem não trazer benefício e, em alguns casos, reduzir desfechos intermediários relevantes.
O que o estudo mostrou
Análise secundária exploratória de ensaio randomizado fatorial com 577 pacientes da atenção primária dispostos a reduzir, mas não a parar, o tabagismo, randomizados para aconselhamento de redução, mini-pastilha de nicotina, ativação comportamental e aconselhamento motivacional 5Rs. Análises de aprendizado de máquina mostraram que a autoeficácia para parar previu tentativas de parar e entrada em tratamento. Com autoeficácia alta, não houve efeitos significativos; com autoeficácia baixa, aconselhamento de redução e mini-pastilha reduziram as chances desses desfechos. Não houve efeitos significativos sobre abstinência.
Limitações
O resumo não informa detalhes sobre o desenho completo, o poder estatístico ou o tempo de seguimento além do desfecho de 1 ano. Por ser análise secundária exploratória com abordagem de aprendizado de máquina, os achados são hipótese-geradores e exigem confirmação. O resumo também não descreve limitações apontadas pelos autores nem a representatividade da amostra da atenção primária.
Aplicação no consultório
A autoeficácia para parar pode ser usada na avaliação inicial para estratificar pacientes que aceitam apenas reduzir. Em pacientes com autoeficácia baixa, aplicar indiscriminadamente aconselhamento de redução ou mini-pastilha pode não ajudar e até reduzir tentativas de parar ou entrada em tratamento; vale reavaliar a estratégia e considerar abordagem diferente. Para a gestão do consultório, isso apoia o uso de medidas breves de autoeficácia na triagem e a revisão de protocolos de tratamento motivacional padronizados.
Estudo citado
Treating those not ready to quit smoking: Doing harm while trying to help? Addictive behaviors, 2026.
Autores: Betts JM, Klemperer EM, Baker TB, Loh WY, Coleman SRM, Cook JW.
DOI: 10.1016/j.addbeh.2026.108632 · PubMed: PMID 41650518
Perguntas para aprofundar
- Como medir autoeficácia para parar de fumar na consulta de atenção primária?
- Que abordagem alternativa considerar para pacientes com baixa autoeficácia que recusam cessação?
- O aconselhamento para redução pode atrapalhar desfechos intermediários em alguns perfis de fumantes?
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