# O uso de um estetoscópio com inteligência artificial na atenção primária aumenta a detecção de insuficiência cardíaca, fibrilação atrial e valvopatia?

> Em um ensaio clínico randomizado por conglomerados no Reino Unido, a implementação do estetoscópio com inteligência artificial na rotina da atenção primária não aumentou significativamente a detecção de insuficiência cardíaca após 12 meses. Porém, o uso efetivo do dispositivo associou-se de forma independente a taxas maiores de detecção de insuficiência cardíaca, fibrilação atrial e valvopatia.

Estudo citado: Kelshiker MA, Bächtiger P, Petri CF, Nakhare S, Mansell J, Chhatwal K et al.. Triple cardiovascular disease detection with an artificial intelligence-enabled stethoscope (TRICORDER) in the UK: a cluster-randomised controlled implementation trial. Lancet (London, England). 2026. DOI: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(25)02156-7. PubMed: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41619752/

## Resposta

O estudo TRICORDER avaliou, em cenário real de atenção primária no Reino Unido, se a implementação de um estetoscópio com inteligência artificial na rotina clínica aumentaria a detecção de doenças cardiovasculares. As práticas foram randomizadas em intervenção, com treinamento e uso do dispositivo, ou controle, com cuidado habitual. O desfecho primário foi a incidência de novos diagnósticos codificados de insuficiência cardíaca, expressa por 1000 pacientes-ano.

Na análise por intenção de tratar, a detecção de insuficiência cardíaca não diferiu entre os grupos, com razão de taxas de incidência de 0·94 (IC 95% 0·86-1·02). Também não houve diferença entre diagnósticos feitos na comunidade ou por internação hospitalar. Ou seja, a simples disponibilização da tecnologia, acompanhada de treinamento, não foi suficiente para elevar a detecção populacional no período estudado.

Por outro lado, o uso do estetoscópio com inteligência artificial foi independentemente associado a taxas significativamente maiores de detecção de insuficiência cardíaca, fibrilação atrial e valvopatia. Esse achado sugere que o efeito depende da efetiva utilização do dispositivo durante os exames cardíacos, e não apenas da sua incorporação ao serviço.

O estudo também descreve desafios de implementação, incluindo barreiras e facilitadores relatados por clínicos, além de taxas de uso do dispositivo. Para o médico, o resultado reforça que a tecnologia tem potencial de apoio à detecção, mas seu impacto real depende de fluxos de trabalho, treinamento e adesão à ferramenta no dia a dia do consultório.

A interpretação dos autores é que a implementação do estetoscópio com inteligência artificial na atenção primária não aumentou significativamente a detecção de insuficiência cardíaca nem o diagnóstico comunitário após 12 meses. O desenho pragmático randomizado foi apresentado como forma de gerar dados do mundo real para compreender e superar barreiras à incorporação de inovação em saúde.

## O que o estudo mostrou

Ensaio clínico pragmático, randomizado por conglomerados, com 205 práticas de atenção primária no Reino Unido, sendo 96 no braço de intervenção (701 933 pacientes registrados) e 109 no controle (851 242 pacientes registrados). Foram registrados 12 725 exames com o estetoscópio de inteligência artificial, por 972 usuários clínicos. Na análise por intenção de tratar, a detecção de insuficiência cardíaca não diferiu entre os grupos (IRR 0·94; IC 95% 0·86-1·02), sem diferença entre diagnósticos comunitários ou hospitalares (p>0·05). O uso do dispositivo associou-se independentemente a maiores taxas de detecção de insuficiência cardíaca, fibrilação atrial e valvopatia.

## Limitações

O resumo não informa detalhes sobre cegamento, que não foi factível segundo o texto, nem sobre características dos pacientes incluídos. Os desfechos basearam-se em diagnósticos codificados em base administrativa, e o resumo não detalha limitações adicionais. O período de implementação foi de 12 meses, e os resultados de uso associado vêm de análise observacional dentro do ensaio, não de comparação randomizada.

## Aplicação no consultório

A incorporação de um estetoscópio com inteligência artificial exige mais do que aquisição de equipamento: é preciso treinar a equipe, definir em quais exames cardíacos o dispositivo será usado e monitorar taxas de utilização. Como o efeito populacional não apareceu apenas com a implementação, o consultório deve acompanhar indicadores de uso e de detecção, além de barreiras relatadas pelos clínicos, para ajustar fluxos e evitar subutilização da ferramenta.

## Perguntas para aprofundar

- Quais barreiras e facilitadores os clínicos relataram para usar o estetoscópio com inteligência artificial na rotina?
- Como o uso efetivo do estetoscópio com inteligência artificial se associa à detecção de fibrilação atrial e valvopatia?
- Que estratégias de implementação podem aumentar a adesão ao estetoscópio com inteligência artificial na atenção primária?

Tema: IA na atenção primária. Página: https://alphadoctor.com.br/ciencia/ia-atencao-primaria/o-uso-de-um-estetoscopio-com-inteligencia-artificial-na-atencao-primaria/

Conteúdo educacional para profissionais de saúde, baseado no resumo do artigo citado. Não substitui a leitura do estudo original nem avaliação clínica.
